sábado, 15 de outubro de 2005

::: carta de recusa :::

das Seleções do Reader's Digest de fevereiro de 2000

Depois de examinar um texto para publicação, uma editora chinesa enviou a seguinte nota de recusa: "Lemos seu texto com um prazer indizível. No entanto, se publicássemos seu livro, seria impossível editar qualquer obra de padrão inferior. E é inimaginável que nos próximos mil anos vejamos uma igual. Somos obrigados a devolver sua divina composição e implorar-lhe mil vezes que perdoe nossa timidez restrita."

(dawn zine ...recém bem vindo ...)

::: uma música :::

Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz

Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás amor a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis...

(chico buarque - dueto)

::: zero e-zine :::

::Solidão:
um só, repensando,

Em não tendo mais nada
para acreditar
acreditava nas frases
das canções populares

em não tendo ouvidos
para lhe aproximar
ouvia todas as músicas
seu ouvido era delas

e não escolhia os temas
ou os estilos
ouvia Sinatra
ouvia Robero, ouvia rock americano e ouvia pagode

e ia aprendendo
e ia mudando
o tempo passando

em não tendo ninguém
pra lhe entender
passou a se esforçar
pra se explicar.

(zero e-zine 40- parte III)

::: sonho estranho :::

sonhei que o Zé Dirceu cantava "passarinho quer dançar, o rabicho balançar pq acaba de nascer tchu tchu tchu tchu" num programa dominical ... e ainda insistia que não era o seu fim ...

... ou será pesadelo ?!?

(guilherme)

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

::: para o dia das crianças :::

Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem

Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem

O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem

Procurando bem
Todo mundo tem...

(edu lobo e chico buarque - ciranda da bailarina)

terça-feira, 4 de outubro de 2005

::: não se atreva a pular corda fora do horário pré estabelecido :::

dança não é balanço ...
tire esse rosto dos olhos do disquete ...
tire esse olhar da minha cara séria ...
fale um pouco mais sério a respeito de transações pela internet ...
meu Deus ... berço não é barco ... barcelona não é sampa ...
mas sempre fica um gosto de drops de hortelã na boca ...
hora dessas passa a vida em pleno vôo atlântico ...
luvas pra esconder o problema ... laços pra condenar a paisagem ...
fale um pouco mais sério sobre ficar up ... sobre tomar danup no canudinho ...
tire esse pé gelado do sofá sujo ...
tire a mão da minha idéia de cantar desafinado ...
dança não é descanso ... pense você o que quiser ...
pense você que é só pra aposentar o video-cassete ...
e daí que eu também não sou vegetariano ...
isso faz de nós juntos uma dupla quase inegável ... quase afins ...
... cuidado só pra não deixar passar o próximo vagão ...
até porque as estações do ano estão cada dia mais confusas ....
e os anos uns dias cada vez mais rápidos ...
minha nossa ... o bar parece um barco ... e a noite soa como sinos de Natal ...
francamente, a cabeça flutua um iceberg cheio de fraquezas ...
pense você que é só pra enganar a vingança ...
ou que seja pra atolar a saída em creme de barbear ...

(guilherme)

::: merda e ouro :::

Merda é veneno.
No entanto, não há nada
que seja mais bonito
que uma bela cagada.
Cagam ricos, cagam pobres,
cagam reis e cagam fadas.
Não há merda que se compare
à bosta da pessoa amada.

(paulo leminski)

::: uma boa frase :::

"O PT, que começou como um partido de presos políticos, pode terminar como um partido de políticos presos"

(joelmir betting, no jornal da band (26/09/2005))

::: uma música :::

If you ever get close to a human
And human behaviour
Be ready to get confused
There's definitely no logic
To human behaviour
But yet so irristible
There's no map
To human behaviour
They're terribly moody
Then all of a sudden turn happy
But, oh, to get involved in the exchange
Of human emotions is ever so satisfying
There's no map
And a compass
Wouldn't help at all
Human behaviour

(human behavior - bjork ... and there's no map ...)

::: meio de livro :::

Naqueles tempos eu tinha uma passada larga, o andar de um pistoleiro, a ginga típica do canhoto, o ombro esquerdo pendendo um pouquinho, O Braço balançando flexível como uma serpente - meu braço, meu bendito e sagrado braço, vindo de Deus; e se o Senhor criou-me de um pedreiro pobre, cobriu-me de jóias quando encaixou aquela maaravilha na minha clavícula.

(1933 Foi Um Ano Ruim - John Fante)

::: ... ... ... ... ... ... :::

não me olhe como se eu fosse uma espera ...
como se eu pudesse contar uma boa stória ...
eu tenho a coragem ... e sou o medo ...
tenho um segredo que ainda deverá ser revelado ...
não me olhe cegamente ... com incertezas mais que certas ...
me veja com uma espécie de carinho ... que não possa ser guardado ...
me traga um soco na cara ... ou um espelho nos olhos ...
não me espere como se eu fosse uma boa stória,
nem me pertença em noites insólitas ...
eu tenho o medo ... e sou a coragem ...
tenho uma revelação que ainda será um segredo ...
me olhe desperta ... com certezas mais que incertas ...
com uma espécie de guarda ... que não possa ser carinho ...
me traga uma cara no espelho ... ou um soco nos olhos ...
e não me conte como se eu fosse uma boa espera,
nem me pertença em dias bucólicos ...
... eu tenho segredo ... e sou a viagem
ao fundo do poço ... do começo da fonte ...

(guilherme)

::: uma frase :::

... não sei se faz sentido o meu olhar ser tão distante, num tempo de consumismo ultra-rápido ...

(guilherme) ... meio de outro texto ...

::: meio de música :::

stay if you want to
i always wait to hear you
say there's a last kiss
for all the times you run this
way its not my fault
you couldnt ever love me more
you couldnt love me more
you couldnt love

love me more
couldnt ever love me more
i couldnt love you more
i couldnt love ...

(the cure - the end of the world)

::: a verdade :::

Como posso saber se o que vejo desta janela é de fato a paisagem que vejo?... Há muito, finjo acreditar em coisas que o homem teima em trocar pela fragilidade do vidro.
Deus existe?...
Deus não existe?...
Ambas as coisas são verdade ao mesmo tempo. Pergunto-me e pergunto-lhe se a verdade existe mais que um milésimo de segundo.
Nada é eterno.
A eternidade passa depressa como a ciência.

(cruzeiro seixas)

::: iceberg :::

Uma poesia ártica,
claro, é isso que eu desejo.
Uma prática pálida,
três versos de gelo.
Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
não seja mais possível.
Frase, não, Nenhuma.
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,
a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?)
Sim, inverno, estamos vivos.

(paulo leminski)