quarta-feira, 24 de março de 2010

::: poema do amigo aprendiz :::

Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...
 
(fernando pessoa)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

::: aliteração :::

para T...

não tem tanto tempo tinha tanto encanto
não tinha tamanho o sentimento.
tenho o álbum que remonto,
com fotos e temas, textos e fatos
tenho falta do tato que me falta...
talento pra retratar eu não tenho...
tanto tempo tivemos,
tentaríamos ter tanto...
mas não teremos lamentos
e vamos tocar tudo em frente,
mentir até acreditar.
em minha mente um entulho de retalhos
cartas a noite,
tentativas de trazer tudo de volta:
teatro, tesão, leite com café
cachorro-quente, tv e youtube...
minha mente tudo sente
talvez entraves, vontade de voltar
talvez tristeza somente
trevas intermináveis e tormento
vontade te trazer tudo de volta ao lugar
teu encanto todo
e tudo o que sempre quis ter...

(...)

::: meio de música :::

...a realidade é que sem ela não há paz, não há beleza
é só tristeza e a melancolia que não sai de mim...

(chega de saudade - vinícius de moraes)

::: celebrações hedonistas :::

"Que acordo mais legítimo pode unir o homem à vida do que a dupla consciência de seu desejo de durar e de seu destino de morte?"

(albert camus - núpcias)

::: medo, medo, medo :::

Eu tenho medo e medo está por fora
O medo anda por dentro do teu coração
Eu tenho medo de que chegue a hora
Em que eu precise entrar no avião

Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão
Apertar o botão: cidade morta
Placa torta indicando a contramão
Faca de ponta e meu punhal que corta
E o fantasma escondido no porão

Medo, medo. medo, medo, medo, medo

Eu tenho medo que Belo Horizonte
Eu tenho medo que Minas Gerais
Eu tenho medo que Natal, Vitória
Eu tenho medo Goiânia, Goiás

Eu tenho medo Salvador, Bahia
Eu tenho medo Belém do Pará
Eu tenho medo pai, filho, Espírito Santo, São Paulo
Eu tenho medo eu tenho C eu digo A

Eu tenho medo um Rio, um Porto Alegre, um Recife
Eu tenho medo Paraíba, medo Paranapá
Eu tenho medo Estrela do Norte, paixão, morte é certeza
Medo Fortaleza, medo Ceará

Medo, medo. medo, medo, medo, medo

Eu tenho medo e já aconteceu
Eu tenho medo e inda está por vir
Morre o meu medo e isto não é segredo

Eu mando buscar outro lá no Piauí
Medo, o meu boi morreu, o que será de mim?
Manda buscar outro, maninha, no Piauí

(pequeno mapa do tempo - belchior)

::: canção do amor imprevisto :::

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...
E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita…
A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.


(mario quintana)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

:::especial exército de um homem só:::

:::especial exército de um homem só:::









(esquerdafestiva.blogspot.com)

:::especial exército de um homem só:::

Passa sobre moinhos de vento,
sobre pontes que nos unem numa caminhada solitária.
Passa sobre as casas,
por entre as pausas entre as canções,
passa sem pecados e sem vontade de se criar um refrão em coro...
Passa um exército solitário.
Sofre com a expectativa silenciosa de um dia unir-se a ti,
de um dia unir-se a tudo e todos.
Em vão.
Passa pelo vão das paredes o grito que silencia.
Nos chega aos ouvidos o benefício da dúvida,
a loucura em lentidão contínua...
Nos chega o medo da solidão,
nos chega de repente a necessidade de solidão.
Nossa guerra solitária é acreditar,
lutar sozinhos pela paz...
lutar pelo desejo de acreditar nas causas que se perdem
lutar pelo que for preciso,
mesmo que seja por amor às causas perdidas...

(guilherme)

:::especial exército de um homem só:::

::: meio de livro :::

... "Está com saudades; mas sabe que nos cumes se é solitário; sabe que nesta trajetória é preciso destruir as pontes da retirada. Cansado de chorar, acaba adormecendo. ..."

(moacir scliar - pág. 49)

domingo, 17 de janeiro de 2010

...: dueto :...

...: eternamente quarenta e sete :...

Parecia meio furada a meia, meio querendo se aposentar... mas ainda aquecia os pés, feito um último esforço, ou o único possível. Inverno cinza naquela cidade estranha, num ano que não me lembro ao certo. O tempo corrente se trata de uma sensação atemporal, de uma stória de um velho que já nasceu velho, de um ranzinza em inverno cinza procurando o outro par da meia meio furada. O mundo lá fora se tornou cada vez mais high tech, tudo se move pelas ondas de uma rede virtual, o piscar de olhos e o cara-a-cara não têm vez, como se fossem uma forma de perder tempo, dorme-se com um olho acordado, um olho no gato e outro na tigela. Esse é o clima da atmosfera contemporânea, essa é a velocidade com que se movem as notícias, essa guria do momento só dura um dia, repete-se o refrão da música da hora, uma onda atropela a outra onda que atropela a outra onda, fazendo quase nada durar. Quinze minutos de fama em live shows, e uma vida inteira contada em propagandas de cerveja. O velho tem quarenta e sete. Tem hoje e sempre teve. Ele acompanha as notícias, vê o mundo pela internet, enxerga longe com seus olhos calibrados e velhos. O velho é moderno no uso das ferramentas, é moderno e evita que a ferrugem da nascença o faça antigo. O velho é moderno e se acostuma a novas tecnologias, faz parte da evolução, exibe com orgulho a novidade recente. Mas a novidade a garotada já conhece de cor, pois não há nada de realmente novo nas novas novidades. Só o gosto restaurado ou o resurgimento do antigo. O novo nasce velho.

...: meio de música :...

E vou viver as coisas novas
Que também são boas
O amor, humor das praças
Cheias de pessoas
Agora eu quero tudo
Tudo outra vez...

(belchior - tudo outra vez)

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

::: heróis :::

Não temos heróis nem jamais os tivemos. Afinal, para que servem os heróis? E suas estátuas de granito ou de mármore negro, seus cavalos de bronze, suas medalhas barrocas e as espadas que não passam de metáforas? Para que servem os heróis, se o ácido da chuva desdenha da glória dos homens e nem os pássaros se importam com eles? Para que servem os heróis, se nem sabem quem somos nem jamais ouviram falar dos nossos mitos e utopias?

(francisco carvalho)

::: uma música :::

Well, they blew up the chicken man in philly last night
Now, they blew up his house, too
Down on the boardwalk theyre gettin ready for a fight
Gonna see what them racket boys can do

Now, theres trouble bustin in from outta state
And the d.a. cant get no relief
Gonna be a rumble out on the promenade
And the gamblin commissions hangin on by the skin of his teeth

Well now, evrything dies, baby, thats a fact
But maybe evrything that dies someday comes back
Put your makeup on, fix your hair up pretty
And meet me tonight in atlantic city

Well, I got a job and tried to put my money away
But I got debts that no honest man can pay
So I drew what I had from the central trust
And I bought us two tickets on that coast city bus

Now, baby, evrything dies, honey, thats a fact...

Now our luck may have died and our love may be cold
But with you forever Ill stay
Were goin out where the sands turnin to gold
Put on your stockins baby, `cause the nights getting cold
And maybe evrything dies, baby, thats a fact
But maybe evrything that dies someday comes back

Now, I been lookin for a job, but its hard to find
Down here its just winners and losers and dont
Get caught on the wrong side of that line
Well, Im tired of comin out on the losin end
So, honey, last night I met this guy and Im gonna
Do a little favor for him

Well, I guess everything dies, baby, thats a fact...